ÁLCOOL DURANTE A GESTAÇÃO: QUAL O VERDADEIRO RISCO?

Não existe uma dose limite pré-estabelecida para a ingestão do álcool pela gestante que não prejudique o bebê.

O álcool na forma de bebida é uma droga lícita para consumo, encontrada em todo o mundo e há séculos consumida por homens e mulheres, em diferentes situações e contextos, e na grande maioria das vezes associado à diversão e encontros sociais. Por se tratar de uma droga psicotrópica ela atua no sistema nervoso central, provocando mudanças no comportamento de quem a consome, além de, potencialmente, desenvolver dependência.

Hermann Grinfeld é doutor em Neurociências e Comportamento pela Universidade de São Paulo, membro do Grupo sobre os efeitos do álcool na gestante, no feto e no recém-nascido da Sociedade de Pediatria de SP e referência no assunto. Entre seus artigos, um deles aborda os problemas relacionados ao uso/abuso de álcool. Segundo ele, os efeitos dessa substância no organismo das mulheres são mais exacerbados em comparação aos homens devido ao fato delas terem uma maior biodisponibilidade ao álcool. Isso ocorre devido a maior proporção de gordura corpórea, menor quantidade de água total no organismo e a menor atividade da enzima álcool-desidrogenase responsável por metabolizar essa substância. Assim, o impacto causado pelas bebidas alcoólicas no organismo das mulheres é maior do que no organismo masculino.

No caso de mulheres grávidas as consequências do consumo das bebidas alcoólicas são ainda mais avassaladoras. De acordo com Hermann Grinfeld, aproximadamente 55% das mulheres adultas grávidas consomem bebidas alcoólicas, dentre as quais 6% são classificadas como alcoolistas.

Em 1973 foi publicado, pela primeira vez, nos Estados Unidos, dados sobre os efeitos fetais do álcool na gestação. Já se sabe que o álcool é hoje considerado o agente mais tóxico para o SNC- Sistema Nervoso Central- tanto de adultos, como principalmente para os fetos.

Quando álcool cruza a placenta, ele vai direto para o sangue fetal e
se distribui para todos os tecidos e órgãos do feto, agindo de forma a induzir uma destruição neuronal, provocando extensas lesões.

Dentre os danos ocasionados pelo consumo do álcool na gestação, podemos destacar a grande incidência de abortos espontâneos, retardo de crescimento intrauterino, trabalho de parto prematuro, microcefalia, má formações renais, ósseas, cardíacas, de cerebelo, hipocampo e córtex pré-frontal, além daquela que é considerada uma das doenças com maior comprometimento neuropsiquiátrico em bebês de mulheres que beberam em excesso na gestação – a Síndrome Alcoólica Fetal – SAF.

O termo SAF foi batizado em 1973 por Jones & Smith e se refere a um conjunto de características e atrasos no desenvolvimento de crianças nascidas de mães que consumiram álcool durante a gravidez. Este padrão característico de anomalias acomete cerca de 1 a 3 crianças a cada mil nascidas vivas (embora não haja dados oficiais no Brasil) e é caracterizada principalmente por:

  • dismorfismos faciais (como fissura palpebrais curtas, filtro liso e lábio superior fino);
  • déficit de crescimento pré  e/ou pós natais;
  • alterações do sistema nervoso central associado à deficiência intelectual.

 

Além destas, os indivíduos afetados pelo consumo do álcool na gestação, também podem apresentar problemas comportamentais e de aprendizagem, hiperatividade, problemas de memória, atenção, concentração, linguagem, audição, dificuldades em solucionar problemas e conflitos interpessoais.

Por esta razão a Organização Mundial da Saúde (OMS) é inflexível, e tem como recomendação acerca do consumo do álcool no período gestacional uma só: nenhuma dose da ingestão de qualquer tipo de álcool durante toda a gestação.

 

Equipe de Prevenção da APAE Limeira faz campanha anual de alerta

 

 

O melhor caminho sempre é a prevenção já que os efeitos do álcool ocasionados pela ingestão materna de bebidas alcoólicas durante a gestação não têm cura.

Estudos apontam para a necessidade do apoio de equipes multidisciplinares para o sucesso de programas que visam a redução da incidência da SAF.  Pensando nisso, é que há dez anos uma equipe especializada da APAE de Limeira promove anualmente uma campanha que visa alertar o maior número de pessoas possíveis sobre os perigos do consumo do álcool na gestação. O assunto é abordado em palestras, treinamentos para capacitação de profissionais das áreas da saúde e educação, bem como ganha evidência na comunidade através da parceria com a mídia local e com a distribuição de materiais impressos com orientações técnicas específicas.

“Esta campanha nasceu para alertar o maior número de pessoas possível sobre o perigo do álcool na gestação e, principalmente, informar que, hoje, ele é a principal causa ambiental de Deficiência Mental e essa causa, todos nós podemos prevenir, é uma questão de consciência, por isso, o diferencial deste trabalho é que ele acontece fora da entidade”, diz Luciana Benedetti Lavoura- coordenadora da Equipe de Prevenção APAE Limeira.

Sabemos que na Europa ou Estados Unidos já existem centros de formação para treinamentos nesta área e o consumo de álcool na gestação é visto e abordado como um problema de saúde pública. Aqui no Brasil, infelizmente, ainda estamos engatinhando neste processo, no entanto, o que podemos fazer além de tentar identificar essas crianças, garantindo a elas um acompanhamento especializado é garantir que as informações cheguem até a comunidade, e que as mulheres e especialmente as gestantes compreendam, que gerar uma vida é um dos momentos mais lindos de uma mulher e que ele deve vir acompanhado de conhecimento e responsabilidades”, diz.

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